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Deus e o Diabo na terra do sol (1964)

Deus e o Diabo na terra do sol (1964)

Manuel é um vaqueiro pobre que vive com a mulher, Rosa, no sertão nordestino. Depois de ser enganado pelo coronel Moraes em uma disputa envolvendo gado, ele se revolta e o mata. A partir daí, sua vida deixa de ter qualquer possibilidade de estabilidade. Manuel e Rosa fogem pelo sertão e acabam se aproximando de Sebastião, um líder religioso que reúne seguidores em torno da promessa de uma terra onde não existiriam fome nem sofrimento. A religiosidade de Sebastião é apresentada menos como uma resposta espiritual do que como uma tentativa desesperada de encontrar algum sentido em uma realidade em que a miséria parece não ter fim.

O que mais me impressiona em Deus e o Diabo na Terra do Sol é que Glauber Rocha não está interessado em transformar essa história em uma aventura convencional sobre o sertão. O sertão aqui não é cenário: é quase uma força que determina o comportamento dos personagens. A seca, a fome, a violência e a desigualdade não aparecem apenas como problemas sociais que os personagens precisam superar, mas como elementos que deformam completamente a maneira como eles enxergam o mundo. Manuel está sempre procurando uma saída e, justamente por isso, acaba sucessivamente entrando em situações ainda mais violentas. Ele passa do trabalho para o crime, do crime para o fanatismo religioso e, depois, para a luta armada. É como se todas as portas que ele encontra levassem inevitavelmente a outra forma de violência.

E acho especialmente interessante que Rosa seja a personagem que menos parece acreditar nas soluções grandiosas que aparecem ao redor dela. Enquanto Manuel se deixa seduzir por discursos de salvação, ela permanece desconfiada, observando tudo com uma espécie de cansaço. É uma personagem que frequentemente parece enxergar antes dele o absurdo das situações em que estão envolvidos. Isso dá à relação dos dois uma dimensão muito mais interessante do que a de simplesmente “casal que foge junto”. Rosa está ao lado de Manuel, mas não necessariamente compartilha de suas crenças. Ela acompanha o marido porque também não tem para onde ir.

Quando surge Antônio das Mortes, a coisa fica ainda mais interessante. O personagem interpretado por Maurício do Valle é uma espécie de jagunço profissional, contratado para eliminar aqueles que ameaçam a ordem estabelecida. Ele não é exatamente um vilão no sentido tradicional. É um homem que executa um trabalho dentro de uma estrutura de poder muito maior do que ele. A violência dele é quase burocrática. Ele mata porque alguém paga para que mate, e sua existência mostra que naquele universo até a morte pode ser transformada em serviço. O contraste entre Antônio e Manuel é fundamental: um está tentando sobreviver à violência, enquanto o outro aprendeu a viver dela.

A presença de Corisco muda novamente o filme. Depois de Sebastião, Glauber abandona a possibilidade de uma salvação religiosa e apresenta outra promessa de transformação: a violência revolucionária. Corisco é delirante, carismático e brutal. Ele não oferece paz, oferece vingança. E é justamente aí que o filme se torna mais complexo, porque Glauber não parece acreditar completamente em nenhuma das duas alternativas. Nem a religião de Sebastião nem o cangaço de Corisco conseguem realmente libertar Manuel. Ambos são movimentos que nascem da miséria, mas também reproduzem a violência que pretendem combater.

O título resume essa estrutura muito bem. Deus e o Diabo aparecem como duas forças aparentemente opostas, mas que acabam se aproximando. A religião e a violência revolucionária parecem caminhos diferentes, mas ambas nascem da mesma realidade e exigem dos personagens uma entrega absoluta. O sertão é um lugar em que as pessoas precisam acreditar em alguma coisa para continuar andando. E talvez seja justamente essa necessidade de acreditar que torne os personagens tão vulneráveis aos líderes que aparecem oferecendo alguma espécie de destino.

Também gosto muito da maneira como o filme transforma o sertão em uma espécie de espaço mítico. Glauber não busca o realismo naturalista que poderíamos esperar de uma história sobre pobreza rural. As paisagens são enormes, os personagens frequentemente aparecem isolados dentro delas e a fotografia transforma o ambiente em algo quase sobrenatural. Ao mesmo tempo, existe uma materialidade muito forte: o chão seco, os corpos, o suor, os animais, a poeira, a fome. É um filme que consegue ser simultaneamente concreto e delirante.

E aí entra uma das coisas que mais admiro: a violência formal. A câmera não está ali simplesmente para registrar os acontecimentos de maneira confortável. Os movimentos são bruscos, os enquadramentos parecem às vezes improvisados, a montagem cria uma sensação de desorientação e a trilha sonora de Sérgio Ricardo transforma a história em uma espécie de cantoria épica. O filme parece contar uma lenda enquanto, ao mesmo tempo, desmonta a própria ideia de lenda. É um épico feito com poucos recursos, mas com uma ambição gigantesca.

A música é fundamental para isso. O sertão de Glauber é narrado também pelos cantadores, pelas canções e pela repetição de estruturas quase populares. Em vez de simplesmente explicar quem são aqueles personagens e por que estão naquela situação, o filme os transforma em figuras de uma narrativa oral. Manuel e Rosa deixam de ser apenas duas pessoas específicas e passam a representar uma experiência coletiva. Isso também explica por que algumas cenas têm uma dimensão tão teatral e exagerada. Deus e o Diabo não quer que eu esqueça que estou vendo uma construção cinematográfica; ele quer transformar essa construção em mito.

Ao mesmo tempo, confesso que é justamente essa radicalidade que torna o filme um pouco difícil de acompanhar em alguns momentos. Glauber tem pouca preocupação em facilitar a experiência do espectador. Os personagens podem falar como se estivessem dentro de uma peça, a narrativa muda de direção abruptamente e algumas cenas parecem existir mais pela força simbólica do que pela necessidade narrativa. Mas, para mim, isso faz parte da experiência. É um filme que não parece interessado em ser “agradável” ou particularmente acessível. Ele quer provocar, perturbar e criar imagens que permaneçam na cabeça.

E algumas delas são inesquecíveis. A procissão, o beato Sebastião, Corisco, Antônio das Mortes, Manuel correndo pelo sertão, Rosa atravessando aquelas paisagens áridas. Tudo parece construído para produzir uma espécie de memória visual. Glauber não filma apenas acontecimentos; ele filma símbolos. Por isso, mesmo quando a narrativa fica excessivamente alegórica, há sempre alguma imagem suficientemente forte para recuperar o filme.

Também acho muito bonito o final, porque ele transforma a fuga de Manuel em algo quase abstrato. Depois de tudo o que aconteceu, depois de Deus, do Diabo, dos beatos, dos cangaceiros e dos matadores, sobra a corrida. O personagem continua andando em direção a alguma coisa que ele não sabe exatamente o que é. E o sertão parece se abrir diante dele. É uma imagem de liberdade, mas também de incerteza. Manuel não conquistou uma vida melhor; ele apenas continua procurando uma.

Deus e o Diabo na Terra do Sol me parece um daqueles filmes em que é impossível separar completamente a história da maneira como ela é contada. A crítica social está presente o tempo inteiro, mas Glauber não quer fazer um filme didático sobre a pobreza nordestina. Ele quer transformar a fome, a fé, a violência e a desigualdade em uma experiência quase febril. É exagerado, às vezes caótico, frequentemente brutal e, justamente por isso, muito vivo.

É também um filme que mostra por que o Cinema Novo foi tão importante. Há uma recusa completa da ideia de que o cinema brasileiro precisava copiar as formas narrativas e visuais do cinema estrangeiro para ser sofisticado. Glauber pega o sertão, a literatura de cordel, o cangaço, a religiosidade popular, a política e o imaginário brasileiro e transforma tudo em uma linguagem cinematográfica própria. Não é um filme que tenta parecer europeu ou hollywoodiano. Ele quer ser brasileiro até quando é delirante.

No fim, o que fica para mim é essa sensação de que Manuel está preso em um ciclo em que toda tentativa de escapar de uma forma de opressão o conduz para outra. E talvez seja justamente aí que esteja a força política do filme: não existe um herói capaz de resolver aquele mundo. Existem pessoas tentando sobreviver dentro dele. E, quando nenhuma solução parece possível, elas inventam deuses, demônios, revoluções e histórias para continuar caminhando.

Nota: 10/10.

Título: Deus e o Diabo na Terra do Sol
País: Brasil
Gênero: Drama / Faroeste / Cinema Novo
Ano: 1964
Diretor: Glauber Rocha
Duração: 125 minutos