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Matou a família e foi ao cinema (1969)

Matou a família e foi ao cinema (1969)

Um rapaz mata os próprios pais dentro de casa e, depois do crime, simplesmente sai para ir ao cinema. A frase que dá título ao filme já contém praticamente toda a provocação de Júlio Bressane: o acontecimento mais brutal possível é colocado ao lado de uma atividade banal, cotidiana, quase ridícula em sua normalidade. O assassinato acontece e, logo depois, vem o cinema. Não há uma grande explicação psicológica, uma investigação policial ou uma tentativa de transformar o criminoso em personagem fascinante. O que interessa é justamente o vazio deixado depois do gesto.

E é um vazio muito incômodo. O filme parece se recusar a oferecer ao espectador aquilo que normalmente esperamos de uma narrativa criminal: motivação, consequência, julgamento. Bressane pega o crime e tira dele a estrutura tradicional de causa e efeito. O rapaz mata, vai embora e a vida continua. A violência não interrompe o mundo; ela simplesmente passa a fazer parte dele. E talvez seja essa indiferença que torne o filme tão perturbador.

Ao lado dessa história, Bressane acompanha duas jovens, que passam um tempo juntas, conversando, se aproximando e vivendo uma relação que tem uma liberdade e uma intimidade muito particulares. A estrutura paralela faz com que o filme pareça menos interessado em contar uma única história do que em colocar diferentes formas de violência, desejo, tédio e transgressão umas ao lado das outras. Há o assassinato da família, mas também existe a violência silenciosa das relações, das convenções sociais e das expectativas que cercam aquelas personagens.

O resultado é um filme que parece estar constantemente zombando da necessidade de encontrar sentido em tudo. O título já funciona como uma espécie de piada de humor negro: matou a família e foi ao cinema. Como se a segunda ação fosse tão importante quanto a primeira. Como se depois de um assassinato ainda fosse preciso decidir o que fazer com o resto da tarde. Essa banalização é cruel, mas também muito brasileira em seu absurdo. Bressane transforma o melodrama em uma coisa quase grotesca, retirando dele a solenidade que normalmente acompanha histórias sobre crimes familiares.

E o cinema dentro do próprio filme não é um detalhe qualquer. O personagem mata a família e vai assistir a um filme, como se a ficção pudesse ser uma continuação da realidade ou uma maneira de escapar dela. Isso cria uma espécie de espelho entre aquilo que estamos vendo e aquilo que o personagem vê na tela. O cinema aparece como entretenimento, fuga, ritual e também como linguagem capaz de reorganizar a violência. Bressane parece perguntar o que significa assistir a imagens violentas quando a própria vida ao redor já parece absurda demais.

A relação entre cinema e transgressão é especialmente importante porque Matou a Família e Foi ao Cinema é um filme que parece querer transgredir também as regras do próprio cinema. A montagem é fragmentada, a narrativa não se preocupa em conduzir o espectador confortavelmente de uma cena à outra e os diálogos muitas vezes parecem existir mais pelo choque ou pela atmosfera do que pela progressão da história. É um filme que dá a impressão de estar sendo inventado diante de nós.

Isso pode ser fascinante e irritante na mesma medida. Bressane não tem muito interesse em explicar o que está fazendo. Há momentos em que a experiência parece deliberadamente desconfortável, quase como se o filme estivesse testando até onde pode levar nossa paciência. Mas acho justamente aí que está parte de sua graça. Ele não quer entregar uma história redonda. Quer provocar uma reação, desmontar expectativas e deixar algumas imagens e situações reverberando depois que o filme termina.

Também há algo muito interessante na maneira como o filme lida com a juventude. Os personagens parecem viver em um mundo em que as regras tradicionais perderam a autoridade, mas nenhuma outra estrutura apareceu para substituí-las. Família, moral, sexualidade e relações afetivas estão todos em crise. O assassinato cometido pelo rapaz é a manifestação extrema dessa ruptura, mas as duas jovens também estão experimentando formas de existência que escapam ao comportamento esperado delas.

E isso faz com que o filme seja muito mais do que uma história de assassinato. O crime é quase o ponto de partida para uma investigação sobre o que acontece quando as estruturas que deveriam organizar a vida deixam de fazer sentido. A família, que normalmente seria o lugar da proteção e da intimidade, torna-se o espaço do crime. O cinema, que deveria ser apenas entretenimento, vira destino depois do assassinato. O amor e o desejo aparecem fora dos modelos convencionais. Nada parece ocupar exatamente o lugar que deveria ocupar.

Há também uma certa crueldade na forma como Bressane filma as pessoas. Ele não parece particularmente interessado em fazer com que gostemos delas. São personagens estranhos, contraditórios, às vezes difíceis de compreender. E acho isso muito mais interessante do que tentar transformar todo mundo em vítima ou vilão. O filme não oferece uma psicologia confortável para explicar o rapaz. Não precisamos saber exatamente por que ele matou os pais para compreender o que a imagem pretende provocar. A falta de explicação é parte do horror.

O título, nesse sentido, é brilhante porque reduz uma ação monstruosa a uma sequência quase burocrática. “Matou a família” é o acontecimento; “foi ao cinema” é a continuação. Não há um “e então se arrependeu”, “e então fugiu”, “e então foi preso”. Existe simplesmente o cotidiano depois da catástrofe. É uma ideia muito próxima do cinema de vanguarda dos anos 1960, interessado em quebrar a narrativa tradicional e mostrar que uma história não precisa necessariamente caminhar para uma conclusão moral.

Também gosto da sensação de liberdade que existe nas cenas das duas jovens. Mesmo com toda a violência e a estranheza do filme, existe ali uma energia muito diferente, mais leve e sensual. A intimidade entre elas não é tratada como uma grande tese sobre sexualidade. Ela simplesmente existe. Isso combina com o espírito do filme: as personagens parecem experimentar possibilidades enquanto o mundo ao redor tenta impor categorias e explicações.

O contexto de 1969 também pesa muito. É impossível assistir a um filme tão agressivo formalmente e tão interessado em romper com valores tradicionais sem pensar no momento histórico em que ele foi realizado. Bressane pertence a uma geração que estava tentando destruir a ideia de que o cinema brasileiro precisava contar histórias de maneira convencional. A resposta não era simplesmente fazer outro tipo de filme comercial, mas questionar a própria linguagem. Matou a Família e Foi ao Cinema é profundamente marcado por essa vontade de ruptura.

E talvez por isso eu goste tanto da sensação de improviso que ele transmite. Parece haver algo de artesanal e urgente na realização, como se Bressane estivesse mais interessado em fazer o filme existir do que em polir suas arestas. É um cinema que não pede licença. Ele pode ser exagerado, estranho, provocador e até pretensioso em alguns momentos, mas dificilmente é indiferente.

O mais curioso é que, apesar do título tão brutal, o filme não depende de violência gráfica para causar impacto. O que incomoda é a ideia. A imagem de alguém cometer um crime absurdo e simplesmente ir ao cinema é mais perturbadora do que seria uma longa sequência de assassinato. Porque transforma a violência em rotina. E, ao fazer isso, Bressane também nos obriga a pensar sobre nossa própria posição como espectadores: nós também estamos sentados diante de uma tela, assistindo a um assassinato, e depois seguimos para a próxima cena.

No final, Matou a Família e Foi ao Cinema me parece um filme menos interessado em responder perguntas do que em criar perguntas desagradáveis. O que leva alguém a matar a própria família? O que fazemos depois de uma ruptura absoluta? Por que precisamos transformar toda violência em uma história explicável? E o que o cinema faz com tudo isso?

Não sei se Bressane quer que encontremos respostas. Provavelmente não. O filme parece muito mais feliz quando nos deixa desconfortáveis, tentando organizar mentalmente alguma coisa que ele deliberadamente desmontou.

Nota: 8/10.

Título: Matou a Família e Foi ao Cinema
País: Brasil
Gênero: Drama
Ano: 1969
Diretor: Júlio Bressane
Duração: 78 minutos