Eles vivem (1988)
Comecei a ver They Live (1988) e em menos de cinco minutos já estava tomada por aquela nostalgia gostosa de filme de Sessão da Tarde. Não sabia o que esperar e, pra falar a verdade, não me lembrava se já tinha ouvido falar do filme. Terminei pensando que, caso fosse lancádo hoje, seria interpretado como uma metáfora para as redes sociais, para a publicidade personalizada ou para a cultura dos influenciadores. O curioso é que Carpenter já falava sobre consumo, alienação e manipulação da informação muito antes de qualquer algoritmo existir.É por isso que They Live continua funcionando. Sua premissa é absurda: John Nada, um operário desempregado que chega a Los Angeles em busca de trabalho, encontra um par de óculos escuros capaz de revelar a verdadeira realidade. Ao colocá-los, descobre que outdoors, revistas, dinheiro e programas de televisão escondem mensagens subliminares como “OBEDEÇA”, “CONSUMA”, “CASE-SE E REPRODUZA”. Mais do que isso, parte da elite política e econômica é composta por alienígenas infiltrados entre os humanos.
Lida superficialmente, a história parece uma típica ficção científica de baixo orçamento dos anos 1980. Mas basta alguns minutos para perceber que Carpenter nunca esteve tão interessado nos alienígenas, seu verdadeiro alvo sempre foi o capitalismo. Carpenter nunca interrompe a narrativa para explicar sua tese. Ele deixa que a própria linguagem do filme faça esse trabalho. Os óculos não servem apenas como um dispositivo de ficção científica; eles funcionam como uma metáfora para o ato de enxergar criticamente aquilo que normalmente aceitamos sem questionar.
Não é à toa que o protagonista se chama John Nada. “Nada” representa um sujeito comum, praticamente invisível para a sociedade. Um trabalhador que poderia ser qualquer pessoa. Carpenter parece sugerir que apenas alguém completamente à margem do sistema seria capaz de perceber como esse sistema realmente funciona.
Gosto muito da simplicidade dessa ideia. Enquanto boa parte da ficção científica da época investia em efeitos especiais grandiosos, They Live aposta em um recurso incrivelmente simples: basta colocar um par de óculos. É uma solução que transforma um objeto cotidiano em ferramenta de consciência política.
Visualmente, Carpenter também faz escolhas muito inteligentes. O contraste entre as cenas coloridas e a visão em preto e branco através dos óculos não serve apenas para diferenciar dois mundos. O preto e branco elimina distrações. Desaparecem logotipos, embalagens chamativas e campanhas publicitárias. Resta apenas a mensagem.
“CONSUMA. OBEDEÇA. NÃO QUESTIONE.”
A força dessas imagens está justamente na economia. Carpenter entende que não precisa construir longos discursos sobre manipulação ideológica quando uma única palavra estampada em um outdoor comunica tudo aquilo que deseja dizer.
É impossível assistir ao filme hoje sem pensar na quantidade de mensagens que recebemos diariamente. Talvez elas já não apareçam em cartazes espalhados pelas ruas, mas continuam ocupando telas, notificações e anúncios personalizados. A tecnologia mudou. O mecanismo de convencimento continua parecido.
Embora trate de temas bastante sérios, Carpenter também nunca perde o senso de ironia. Existe um prazer evidente em transformar uma teoria conspiratória em aventura de ficção científica. O diretor compreende perfeitamente o potencial do cinema de gênero para discutir política sem abrir mão do entretenimento. Seus comentários sociais nunca parecem panfletários porque estão completamente integrados à narrativa.
Também gosto da maneira como Carpenter retrata Los Angeles. Longe do glamour frequentemente associado à cidade, encontramos trabalhadores desempregados, acampamentos improvisados e uma população invisível para aqueles que ocupam o topo da pirâmide social. A crítica ao governo Reagan e às políticas econômicas da década de 1980 é evidente, mas o filme nunca depende exclusivamente desse contexto histórico. A desigualdade que ele retrata permanece reconhecível décadas depois.
Há ainda uma sequência impossível de ignorar: a longa briga entre John Nada e Frank, interpretado por Keith David. São quase seis minutos de socos, quedas e exaustão física por um motivo aparentemente banal: convencer alguém a colocar um par de óculos. Frank resiste porque aceitar aqueles óculos significa abandonar uma realidade confortável, mesmo que ilusória. Carpenter transforma uma discussão filosófica em uma das cenas de ação mais memoráveis do cinema dos anos 1980.
Roddy Piper, vindo do wrestling profissional, surpreende justamente pela naturalidade. Seu carisma combina perfeitamente com esse protagonista silencioso, um homem comum que nunca desejou salvar o mundo, apenas encontrar trabalho. Keith David, por sua vez, oferece o contraponto ideal, conferindo humanidade e humor às interações entre os dois.
Também admiro a coragem de Carpenter em nunca explicar demais seu universo. Não sabemos exatamente de onde vieram os alienígenas, quais são todos os detalhes de sua organização ou como chegaram ao poder. Essas respostas simplesmente não importam. O filme entende que seu verdadeiro interesse está na alegoria, não na construção de uma mitologia complexa.
No fim das contas, They Live prova algo que John Carpenter sempre soube fazer muito bem: utilizar o cinema de gênero para discutir questões profundamente políticas sem sacrificar o prazer de assistir a um excelente filme. Poucas obras conseguem ser, ao mesmo tempo, uma ficção científica divertida, um filme de ação eficiente e uma crítica social tão contundente. They Live consegue.
Nota: ★★★★★ (9/10)
Ficha técnica
Título original: They Live
Título no Brasil: Eles Vivem
Ano: 1988
País: Estados Unidos
Direção: John Carpenter
Roteiro: John Carpenter (como Frank Armitage), baseado no conto Eight O’Clock in the Morning, de Ray Nelson
Gênero: Ficção científica / Terror / Ação / Sátira
Duração: 94 minutos
Elenco: Roddy Piper, Keith David, Meg Foster, George “Buck” Flower
Direção de fotografia: Gary B. Kibbe
Trilha sonora: John Carpenter e Alan Howarth
Montagem: Gib Jaffe e Frank E. Jimenez
Distribuição: Universal Pictures


