À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964)
José Mojica Marins não parecia particularmente interessado em fazer um filme de terror comportado. Em À Meia-Noite Levarei Sua Alma, ele inventa Zé do Caixão, coloca o sujeito em uma cidadezinha onde todo mundo parece ter medo dele e deixa que ele passe aproximadamente uma hora e meia sendo uma das criaturas mais desagradáveis que já apareceram no cinema brasileiro. Zé não é um assassino sofisticado, nem possui poderes sobrenaturais, nem precisa de uma mitologia elaborada para assustar. Ele é simplesmente um homem cruel, arrogante, supersticioso à sua maneira e completamente convencido de que está acima das regras morais que governam o restante da população. E talvez seja justamente essa simplicidade que faça o personagem funcionar tão bem.
Zé do Caixão quer uma coisa bastante específica: um filho que seja capaz de carregar seu sangue e perpetuar seu nome. O problema é que sua mulher, Lenita, não consegue engravidar. Para ele, isso é uma falha imperdoável. Em vez de lidar com a frustração como uma pessoa minimamente civilizada, Zé decide se livrar dela e passa a perseguir Terezinha, mulher de seu amigo Antônio. Quando ela também se recusa a se submeter aos seus planos, ele a estupra e depois a mata, desencadeando a vingança sobrenatural que movimenta a segunda metade do filme. É difícil imaginar um protagonista menos simpático, e Mojica parece saber exatamente disso. Zé não precisa ser amado pelo espectador. Pelo contrário: quanto mais repulsivo ele fica, mais interessante se torna acompanhar sua queda.
O que eu acho mais curioso é que À Meia-Noite Levarei Sua Alma tem uma aparência de filme muito maior do que seu orçamento provavelmente permitiria. Dá para perceber as limitações técnicas, os cenários modestos, os efeitos especiais artesanais e certas atuações bastante exageradas. Mas, em vez de destruir o filme, tudo isso acaba contribuindo para a sua personalidade. Mojica não tenta esconder que está fazendo um cinema pobre em recursos. Ele transforma a precariedade em linguagem. A fotografia carregada, as sombras, os olhos arregalados, os gritos, os cadáveres e principalmente a trilha sonora criam uma atmosfera quase de pesadelo barato — e digo isso como elogio.
Porque há algo deliciosamente cafona no filme. E Mojica entende o poder do cafona. Ele não tem medo de ser exagerado, grotesco ou teatral. Pelo contrário, parece acreditar que o horror precisa ser visto, anunciado e quase esfregado na cara do espectador. Quando Zé do Caixão aparece com sua capa preta, cartola, barba e unhas enormes, ele já parece uma caricatura de si mesmo. Só que, de alguma maneira, essa caricatura se tornou uma das imagens mais reconhecíveis do cinema brasileiro.
E há uma diferença importante entre Zé do Caixão e tantos outros vilões do terror. Ele não está interessado apenas em matar. Ele quer provar uma filosofia. Para Zé, a morte é uma espécie de argumento. Ele acredita que a vida termina no nada e que a única forma de vencer a morte é deixar descendentes. É uma obsessão quase infantil, mas que ele leva a sério como se tivesse descoberto uma verdade universal. Por isso, sua violência está sempre acompanhada de discursos sobre medo, morte, religião e continuidade do sangue. Ele não é simplesmente um criminoso; é um homem que transformou sua própria perversidade em sistema de pensamento.
E isso dá ao filme uma camada bastante divertida. Todo mundo ao redor de Zé parece saber que ele é um sujeito horrível, mas ninguém consegue realmente enfrentá-lo. Os moradores comentam, condenam, rezam, fazem ameaças e tentam alertá-lo sobre as consequências de suas ações, mas ele continua andando pela cidade como se fosse o dono do lugar. Existe quase uma dimensão de faroeste nisso: Zé é o sujeito que entra em cena e imediatamente altera o comportamento de todo mundo ao redor. A diferença é que, em vez de um pistoleiro, temos um homem de capa preta que fala sobre a eternidade e tortura pessoas para defender sua teoria sobre a existência.
A relação dele com a religião também é muito interessante. O filme está cheio de imagens religiosas, rezas, cruzes, cemitérios e referências ao inferno, mas Zé não parece exatamente um ateu racional. Ele rejeita a moral religiosa, mas ao mesmo tempo teme aquilo que ela representa. É justamente essa contradição que torna o terror sobrenatural do final tão eficiente. Durante boa parte do filme, Zé acredita que é mais forte porque não tem medo das crenças dos outros. Quando o sobrenatural finalmente parece se voltar contra ele, toda aquela arrogância começa a desmoronar.
E o filme vai ficando cada vez mais estranho. Depois das mortes, começam as aparições, as visões e os acontecimentos inexplicáveis. Zé passa de predador a perseguido. A cidade que antes parecia dominada por ele começa a se transformar em uma espécie de território hostil. A meia-noite se aproxima, e a promessa feita no título começa a adquirir outro sentido. É aí que Mojica abandona qualquer pretensão de realismo e mergulha completamente no pesadelo.
O resultado não é exatamente assustador no sentido contemporâneo da palavra. Eu não diria que À Meia-Noite Levarei Sua Alma provoca aquele medo que faz você querer esconder o rosto. O terror dele está muito mais na atmosfera, na crueldade e na sensação de que qualquer coisa pode acontecer. E, principalmente, na figura de Zé do Caixão. Ele é tão desagradável que sua presença já produz desconforto. É um personagem que parece existir em um mundo onde a empatia simplesmente não foi inventada.
Também gosto muito da maneira como Mojica trabalha com o corpo. O filme tem uma relação bastante física com o horror: sangue, unhas, olhos, ossos, cadáveres, tortura. Nada é particularmente sofisticado. Às vezes é justamente o contrário. Mas existe uma vontade genuína de explorar o que pode ser feito com o corpo humano para causar repulsa. Em uma época em que o cinema brasileiro ainda estava muito distante de possuir uma tradição consolidada de filmes de horror, Mojica simplesmente resolveu fazer um filme de terror porque queria fazer um filme de terror. E isso, por si só, é bastante admirável.
O mais impressionante talvez seja perceber como o filme criou uma figura que ultrapassou completamente sua própria história. Zé do Caixão acabou se tornando maior do que À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Mas assistir ao primeiro filme em que ele aparece é importante justamente porque aqui ainda existe algo de bruto na personagem. Ele ainda não é uma instituição do terror brasileiro. É apenas aquele homem absurdo de capa preta que aparece no meio de uma cidade pequena, ofende todo mundo, mata quem quiser e acredita sinceramente que ninguém será capaz de pará-lo.
E talvez seja justamente por isso que eu goste tanto do filme. Ele não tem vergonha de ser brasileiro, barato, exagerado e estranho. Não tenta imitar discretamente o terror estrangeiro para parecer mais sofisticado. Mojica pega referências de horror gótico, histórias de fantasmas, religiosidade popular, superstição, melodrama e violência e mistura tudo de maneira completamente particular. O resultado é irregular, às vezes involuntariamente engraçado, mas também absolutamente autoral.
No final, o que fica é a imagem de um cineasta que percebeu uma coisa muito simples: não é preciso ter dinheiro para criar um monstro memorável. Bastava uma cartola, uma capa preta, unhas enormes, uma ideia delirante sobre imortalidade e disposição para fazer o público olhar para aquilo que normalmente preferiria não olhar.
À Meia-Noite Levarei Sua Alma é um filme de terror muito peculiar porque sua maior força não está em tentar assustar perfeitamente. Está em criar uma personalidade. E Zé do Caixão tem personalidade de sobra. Ele é ridículo, repulsivo, teatral, engraçado e genuinamente perturbador. É difícil imaginar esse personagem existindo em outro país ou sendo criado por outro diretor. Ele parece ter nascido exatamente daquele Brasil, daquele cinema e daquela cabeça completamente insana de José Mojica Marins.
Ficha técnica
Título: À Meia-Noite Levarei Sua Alma
País: Brasil
Gênero: Terror
Ano: 1964
Direção: José Mojica Marins
Roteiro: José Mojica Marins
Duração: 84 minutos
Elenco: José Mojica Marins, Magda Mei, Nivaldo de Lima, Valéria Vasquez, Eucaris Moraes, Ilídio Martins
Nota: 9/10


