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São Paulo Sociedade Anônima (1965)

São Paulo Sociedade Anônima (1965)

São Paulo, Sociedade Anônima talvez seja um daqueles filmes em que o título já funciona como uma espécie de diagnóstico. Não é simplesmente a história de Carlos, um homem de classe média que consegue emprego, melhora de vida, se casa, tem amantes e ascende profissionalmente. É a história de um sujeito que vai sendo absorvido por uma cidade que parece oferecer tudo o que ele deseja enquanto, ao mesmo tempo, vai deixando muito pouco espaço para que ele descubra o que realmente deseja. Person filma São Paulo no momento em que a cidade está se transformando rapidamente, impulsionada pela industrialização e pela indústria automobilística, e o resultado é um filme que parece estar o tempo inteiro tentando acompanhar uma metrópole que já não consegue parar.

O mais interessante é que Carlos não é exatamente uma vítima. E talvez seja isso que torne o filme tão incômodo. Ele não está preso a uma vida miserável da qual gostaria de escapar. Pelo contrário: ele consegue aquilo que, em tese, deveria representar o sucesso. Tem emprego, dinheiro, mulher, amante, carro, prestígio e a possibilidade de subir ainda mais. Só que nada disso parece suficiente. Ele está permanentemente irritado, entediado, inquieto, como se tivesse passado anos correndo atrás de uma vida que, quando finalmente alcançou, descobriu que não queria. E eu gosto muito de como o filme não transforma essa insatisfação em algo particularmente nobre. Carlos é egoísta, indeciso, covarde e bastante desagradável em vários momentos. É um homem que quer abandonar tudo sem necessariamente saber o que colocaria no lugar. A crise existencial dele não é exatamente profunda; às vezes ela parece até uma birra de homem que descobriu que dinheiro não resolve tudo.

E é justamente aí que Walmor Chagas funciona tão bem. Carlos tem aquela expressão de quem está permanentemente sendo obrigado a participar de uma reunião da qual gostaria de sair. Ele parece desconfortável em todos os lugares: no trabalho, em casa, com Luciana, com Ana, nas festas, nos ambientes de negócios. É como se nenhuma das vidas disponíveis lhe servisse, mas ele também não tivesse coragem de inventar uma nova. Essa sensação combina perfeitamente com a São Paulo que Person constrói. A cidade não aparece apenas como cenário, mas como uma máquina em funcionamento. Carros, fábricas, ruas, prédios, escritórios, trânsito e pessoas atravessam o filme o tempo todo. É uma cidade que parece produzir indivíduos com a mesma eficiência com que produz automóveis.

E há uma coisa que me chamou particularmente a atenção: o filme é muito menos sobre Carlos do que ele imagina ser. Ele acredita estar vivendo uma crise profundamente individual, mas Person está interessado em mostrar que existe alguma coisa muito maior acontecendo ao redor dele. Carlos é apenas mais um homem tentando encontrar um lugar dentro de uma sociedade que está mudando depressa demais. O desenvolvimento econômico aparece como promessa de modernidade, mas também como uma forma de aprisionamento. O sujeito trabalha para ganhar dinheiro, ganha dinheiro para consumir, consome para demonstrar que venceu e, quando percebe, passou a vida inteira trabalhando para sustentar uma existência que não suporta.

É uma crítica bastante amarga ao modelo de ascensão social, especialmente porque o filme não apresenta a pobreza como única alternativa ao capitalismo. Carlos consegue subir. Ele entra na engrenagem e funciona muito bem dentro dela. O problema é que, quanto mais ele sobe, mais sufocado parece ficar. A empresa, o casamento, as amantes e os círculos sociais são todos extensões diferentes da mesma lógica. Tudo parece negociável. As relações também têm alguma coisa de transação: quem oferece o quê, quem pode proporcionar determinada vida, quem está em ascensão, quem ficou para trás. Até o desejo parece contaminado pela necessidade de possuir.

Luciana, interpretada por Eva Wilma, é especialmente interessante nesse sentido. Ela não é simplesmente a esposa ambiciosa que atrapalha o protagonista em sua busca por liberdade. Ela quer exatamente aquilo que Carlos deveria querer: estabilidade, conforto, status, uma vida materialmente melhor. E talvez por isso os dois sejam tão incompatíveis. Ela acredita no projeto que ele ajudou a construir, enquanto ele começa a odiá-lo justamente quando percebe que não consegue mais sair dele. Carlos quer fugir da sociedade anônima, mas sua própria esposa parece dizer, o tempo todo, que ela é a vida que ele escolheu.

Ana, por outro lado, representa uma espécie de fuga mais caótica. Darlene Glória dá à personagem uma energia completamente diferente, e suas aparições têm algo de instável, quase como se Carlos enxergasse nela a possibilidade de uma vida menos organizada. Mas também não consegue se entregar completamente a isso. Ele quer simultaneamente a segurança de Luciana e a liberdade de Ana. Quer a estabilidade e a aventura, o casamento e a fuga, o dinheiro e a rejeição ao dinheiro. Quer tudo e, portanto, acaba não querendo nada.

Essa indecisão é uma das coisas que mais me interessam no filme. Carlos passa boa parte da história tentando escapar de alguma coisa, mas nunca consegue formular exatamente do quê. É quase engraçado, se não fosse tão melancólico. Ele muda de emprego, muda de mulher, muda de planos, pensa em abandonar São Paulo, mas carrega consigo o mesmo vazio. A cidade pode até ser a culpada pela sua angústia, mas existe também a possibilidade bastante incômoda de que o problema seja simplesmente ele.

Person consegue traduzir essa crise através da própria forma do filme. A narrativa é fragmentada, cheia de idas e vindas, lembranças e repetições, como se Carlos não estivesse contando sua história de maneira organizada porque ele próprio não consegue organizá-la. O filme parece constantemente retornar aos mesmos pontos, aos mesmos lugares e às mesmas pessoas. É uma estrutura que combina com um personagem preso em um ciclo. Ele tenta fugir, mas sempre acaba retornando à mesma engrenagem.

E São Paulo é filmada de maneira extraordinária. Há algo muito moderno na fotografia de Ricardo Aronovich e na montagem de Glauco Mirko Laurelli, sobretudo na maneira como o corpo humano é colocado em meio à arquitetura e ao movimento da cidade. As pessoas parecem pequenas diante dos prédios, dos carros e das avenidas. A cidade está sempre em movimento enquanto Carlos parece incapaz de sair do lugar. É quase uma inversão do cinema urbano tradicional: não é o homem que domina a cidade; é a cidade que parece engolir o homem.

Também gosto muito do fato de Person não fazer questão de deixar Carlos particularmente simpático. Seria muito fácil transformar essa história em uma espécie de drama sobre um homem sensível esmagado pela sociedade moderna. Mas Carlos é frequentemente mesquinho. Ele trai, mente, reclama, foge, deseja mulheres diferentes, despreza o trabalho que lhe proporciona conforto e, quando percebe que está infeliz, imagina que basta simplesmente ir embora. Há uma certa arrogância nessa ideia. Como se abandonar tudo fosse automaticamente uma atitude de liberdade, quando pode ser apenas outra forma de irresponsabilidade.

Por isso, o final me parece tão forte. Carlos tenta escapar, mas a fuga não resolve nada. A estrada, o carro, a cidade, o rádio e as notícias políticas continuam existindo. O mundo continua funcionando independentemente da crise particular daquele homem. E então Person faz uma coisa que adoro: deixa Carlos andando sozinho, enquanto o rádio continua despejando notícias sobre um mundo muito maior do que ele. A política, a Guerra Fria, Cuba, Washington, tudo continua acontecendo enquanto aquele homem caminha sem saber muito bem para onde ir. É como se o filme dissesse: você achou que o problema era a sua vida, Carlos? Olha só o tamanho do mundo.

E aquele congelamento final é maravilhoso justamente porque não oferece uma solução. Carlos não encontra a liberdade. Também não encontra uma nova vida. Ele simplesmente continua existindo, como se tivesse descoberto que não há lugar para onde fugir porque a sociedade que o incomoda não está apenas ao redor dele. Ela está dentro dele. O indivíduo que tenta escapar da engrenagem leva a engrenagem consigo.

O que mais gosto em São Paulo, Sociedade Anônima é justamente essa combinação de retrato histórico e angústia pessoal. O filme registra uma São Paulo específica, a cidade da industrialização acelerada e da euforia desenvolvimentista, mas consegue transformar essa experiência em algo muito mais amplo. É impressionante assistir hoje e perceber como aquela sensação de estar trabalhando demais, consumindo demais, desejando demais e ainda assim não saber exatamente por que se está tão insatisfeito continua absurdamente reconhecível.

É também um filme que me parece muito brasileiro justamente porque não transforma a modernização em uma história de progresso triunfal. Existe uma promessa de futuro em cada esquina, mas existe também uma enorme sensação de vazio. A cidade cresce, as empresas crescem, Carlos cresce profissionalmente, mas ninguém parece particularmente feliz com o resultado. É um filme sobre desenvolvimento econômico que, no fundo, está perguntando uma coisa muito simples e muito desagradável: desenvolvimento para quem e para quê?

E talvez seja essa a razão de ele continuar tão vivo. A própria Cinemateca Brasileira o descreve como um grande painel das transformações sociais e econômicas provocadas pela implantação da indústria automobilística em São Paulo, visto através de um indivíduo em ascensão. Mas eu gosto ainda mais de pensar nele como um filme sobre a ressaca da promessa de felicidade. Carlos conseguiu aquilo que disseram que ele deveria querer. E descobriu que querer aquilo não era suficiente.

No fim, o que sobra é uma cidade enorme, barulhenta, acelerada e indiferente, e um homem andando no meio dela tentando descobrir como chegou até ali. São Paulo, Sociedade Anônima tem uma melancolia muito particular porque não é a melancolia de quem perdeu alguma coisa. É a de quem conseguiu alguma coisa e percebeu tarde demais que talvez nunca tivesse sido aquilo que queria.

Título: São Paulo, Sociedade Anônima
País: Brasil
Gênero: Drama
Ano: 1965
Direção: Luiz Sérgio Person
Roteiro: Luiz Sérgio Person
Duração: 107 minutos
Elenco: Walmor Chagas, Eva Wilma, Darlene Glória, Ana Esmeralda, Otelo Zeloni, Etty Fraser, Sérgio Hingst
Fotografia: Ricardo Aronovich
Montagem: Glauco Mirko Laurelli

Nota: 10/10