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As meninas (1995)

As meninas (1995)

Três jovens mulheres dividem um pensionato religioso em São Paulo no início dos anos 1970. Lorena é a mais protegida e romântica das três, uma moça de classe alta que vive cercada por livros, fantasias e expectativas amorosas. Lia, chamada de Lião, é politicamente engajada e participa da resistência à ditadura militar. Ana Clara, por sua vez, vive em uma situação muito mais precária: dependente de drogas, carregando uma história de abandono e violência, tenta sobreviver entre a prostituição, os relacionamentos destrutivos e a esperança de que algum dia sua vida possa ser diferente. As três são muito diferentes, mas o confinamento do pensionato faz com que suas vidas se cruzem de uma maneira inevitável.

O que mais me interessa em As Meninas é justamente essa convivência entre três formas completamente diferentes de viver a condição de mulher. O filme poderia facilmente cair naquela estrutura em que cada personagem representa uma ideia muito clara — a romântica, a revolucionária e a marginalizada —, mas há algo mais complicado acontecendo. As três estão tentando encontrar algum tipo de liberdade, só que cada uma imagina essa liberdade de uma maneira diferente. Lorena sonha com o amor; Lia sonha com uma transformação política; Ana Clara sonha, antes de tudo, com uma saída para a própria vida.

A adaptação do romance de Lygia Fagundes Telles carrega uma atmosfera muito particular. Existe uma sensação constante de juventude interrompida. São meninas que deveriam estar vivendo descobertas, romances, amizades e planos para o futuro, mas estão cercadas por um país em que a violência política invade a vida cotidiana. O interessante é que a ditadura não precisa estar o tempo inteiro na tela para ser sentida. Ela está nos silêncios, nos medos, nas conversas interrompidas e na sensação de que sempre existe alguma coisa acontecendo do lado de fora que pode mudar tudo.

Lia é talvez a personagem mais diretamente ligada a essa dimensão política. Ela participa da resistência e tenta convencer as amigas de que não é possível simplesmente ignorar o que está acontecendo. Mas o filme não transforma seu engajamento em uma posição confortável. Lia também é uma jovem apaixonada, insegura e cheia de contradições. Existe algo de bonito na maneira como ela tenta conciliar a militância com a vida íntima, porque o filme lembra que ninguém deixa de ser uma pessoa só porque está vivendo um momento histórico terrível.

Lorena é o extremo oposto. Ela vive dentro de uma espécie de mundo particular, cercada por livros, lembranças e fantasias. Seu relacionamento com M.N. ocupa uma parte enorme de sua imaginação, e ela parece acreditar que o amor pode organizar aquilo que a realidade não consegue. À primeira vista, ela pode parecer alienada em relação às questões políticas e sociais que cercam as amigas, mas eu gosto de pensar que sua fantasia também é uma forma de proteção. Enquanto Lia tenta mudar o mundo e Ana Clara tenta escapar dele, Lorena inventa um mundo próprio onde consegue respirar.

E Ana Clara é, para mim, a personagem mais dolorosa. A maneira como o filme apresenta sua dependência não deveria ser confundida com simples decadência moral. Existe uma história inteira de violência por trás daquela mulher. Ela não chegou àquela situação por acaso. O corpo de Ana Clara parece carregar tudo aquilo que a sociedade prefere não olhar: pobreza, abuso, exploração, dependência química e a transformação da mulher em objeto de consumo. Ela quer dinheiro, beleza, amor, segurança e uma vida diferente, mas não parece ter recebido as ferramentas necessárias para conseguir nenhuma dessas coisas.

É justamente por isso que a amizade entre as três é tão importante. Elas não são melhores amigas no sentido convencional. Brigam, escondem coisas umas das outras, têm opiniões completamente diferentes e muitas vezes não conseguem compreender as escolhas das outras. Mas existe uma intimidade construída pela convivência. Elas conhecem os segredos umas das outras e, em alguma medida, sabem que aquele quarto é um dos poucos lugares em que podem existir sem precisar representar completamente o papel que o mundo espera delas.

A casa religiosa onde vivem acrescenta uma camada muito interessante. É um espaço de disciplina, silêncio e controle, ocupado por meninas que estão justamente tentando descobrir quem são. Existe uma contradição evidente entre a instituição e a vida das três. Do lado de fora, o mundo também é controlado pela ditadura; dentro da casa, elas vivem sob outras regras. E, no meio de tudo isso, tentam construir pequenos espaços de liberdade.

O filme tem uma atmosfera bastante teatral, e isso pode ser tanto uma qualidade quanto uma limitação. Algumas cenas carregam uma intensidade muito próxima do melodrama, com diálogos e emoções bastante explícitos. Em determinados momentos, senti que o filme não confiava completamente na força de suas próprias situações e precisava enfatizar aquilo que já estava evidente. Mas, quando funciona, essa teatralidade combina com a origem literária da história e com a própria sensação de clausura.

O que mais gosto é que As Meninas não transforma a juventude em uma coisa bonita por definição. Não existe aquela nostalgia confortável da juventude como período de descobertas e inocência. Essas meninas estão jovens, mas não são inocentes. Já sabem que o mundo pode ser cruel. Já conhecem abandono, violência, repressão e frustração. O futuro não aparece como uma promessa particularmente confiável.

E isso torna a amizade delas ainda mais bonita. Elas podem não conseguir salvar umas às outras, mas conseguem, por algum tempo, testemunhar suas vidas. Lorena sabe quem Lia é. Lia sabe o que Ana Clara está enfrentando. Ana Clara sabe que existe naquele quarto um lugar onde, apesar de tudo, ainda pode ser acolhida. Às vezes, isso é o máximo que uma pessoa consegue oferecer a outra.

A ditadura aparece, portanto, não apenas como pano de fundo histórico, mas como uma força que interfere na possibilidade de imaginar o futuro. Lia pode desaparecer. Pessoas podem ser presas. Cartas podem não chegar. Notícias podem ser escondidas. A própria ideia de futuro se torna instável. E é interessante como o filme coloca isso ao lado dos problemas aparentemente menores da juventude: paixões, ciúmes, sexo, festas, inseguranças. A grande História e a pequena história pessoal coexistem o tempo inteiro.

Também gosto da maneira como o filme trabalha os corpos femininos. Nenhuma das três tem um corpo completamente separado de sua experiência. Lorena vive sua sexualidade através do desejo e da fantasia; Lia, através da relação entre amor e militância; Ana Clara, de maneira muito mais brutal, através da exploração. O corpo é simultaneamente lugar de prazer, violência, desejo e controle.

No caso de Ana Clara, isso chega ao extremo. Ela quer transformar seu corpo para ser desejada, quer usar a beleza como uma espécie de moeda para comprar uma vida melhor. Mas o filme mostra o quanto essa lógica é cruel: ela tenta usar o próprio corpo como instrumento de liberdade e acaba ainda mais presa a ele.

Há também uma melancolia muito forte no fato de que essas três mulheres estão tão próximas e, ao mesmo tempo, tão distantes. Elas vivem no mesmo espaço, mas parecem pertencer a mundos diferentes. Uma fala de amor, outra de revolução, outra de dinheiro e drogas. E, ainda assim, todas estão falando da mesma coisa: da vontade de não continuar vivendo da maneira como lhes disseram que deveriam viver.

As Meninas é um filme sobre mulheres tentando escapar de lugares que já foram escolhidos para elas. Lorena deveria ser a moça de boa família à espera de um grande amor. Lia deveria ser silenciada pela repressão. Ana Clara deveria simplesmente desaparecer na estatística das mulheres pobres e marginalizadas. Nenhuma delas se encaixa perfeitamente nesses papéis. E talvez seja justamente por isso que a história seja tão triste: tentar escapar não significa necessariamente conseguir.

O filme pode ser irregular em alguns momentos e não tem a mesma força formal de algumas das grandes adaptações literárias brasileiras, mas existe nele uma sinceridade muito grande. Ele entende que a história dessas três meninas não precisa ser grandiosa para ser atravessada pela História com H maiúsculo. Uma amizade em um quarto, uma conversa durante a madrugada, uma paixão impossível ou uma crise de abstinência podem carregar as marcas de uma época inteira.

No fim, o que fica é uma sensação de perda. Não apenas pela trajetória das personagens, mas pela ideia de tudo aquilo que elas poderiam ter sido em um país diferente, em circunstâncias diferentes, com mais liberdade e menos violência. As Meninas olha para três jovens mulheres no momento em que suas vidas deveriam estar começando e mostra como, para algumas pessoas, começar já é uma forma de luta.

É um filme que me interessa muito mais pela atmosfera e pelas personagens do que por sua construção narrativa propriamente dita. E talvez essa seja a melhor maneira de entrar nele: não esperando uma história perfeitamente amarrada, mas uma espécie de retrato de três mulheres presas em uma casa, em uma cidade e em um país que também parece estar preso. No fundo, as três estão tentando descobrir como viver. E nenhuma delas tem uma resposta muito convincente.

Nota: 7/10

Título: As Meninas
País: Brasil
Gênero: Drama
Ano: 1995
Diretor: Emiliano Ribeiro
Duração: 95 minutos